Brasil e Mundo
Marine Le Pen poderá concorrer à Presidência, mas com tornozeleira, decide Justiça na França

(FOLHAPRESS) – Marine Le Pen, a principal voz da ultradireita francesa, poderá concorrer às eleições presidenciais de 2027, mas com tornozeleira eletrônica. Atual líder das pesquisas de intenção de voto, Le Pen teve recurso parcialmente negado contra uma condenação de peculato nesta terça-feira (7), em Paris.
A dificuldade logística de tocar uma campanha monitorada pela Justiça poderia fazer Le Pen ceder a candidatura a Jordan Bardella, presidente e nome mais popular de seu partido, o Reunião Nacional (RN). Porém, horas mais tarde, em entrevista à emissora pública TF1, Le Pen declarou que será a candidata presidencial da legenda pela quarta vez. E sem a tornozeleira.
“Não mudarei de opinião”, afirmou. “Nós, Jordan Bardella e eu, vamos iniciar muito em breve essa campanha presidencial”, afirmou a líder do RN. Segundo ela, uma chapa “equilibrada, coerente e sólida”
O Tribunal de Apelações de Paris determinou três anos de prisão para Le Pen, com sursis de dois anos e uso do dispositivo eletrônico por um ano; também fixou sua inelegibilidade por 45 meses, mas com suspensão da pena por 30 meses, deixando um saldo que já foi cumprido; e manteve a multa de € 100 mil (R$ 580 mil).
À TV, Le Pen se declarou inocente e disse que tentará um novo recurso, desta vez para a Corte de Cassação, medida que tinha descartado antes do veredito. Segundo Le Pen, ao entrar com o apelo, a decisão de ser monitorada também seria suspensa.
Em 2025, ela foi condenada por ter usado € 1,4 milhão (R$ 8,1 milhões) em recursos do Parlamento Europeu para pagar funcionários de seu partido.
Em depoimento ao Tribunal de Apelações, no começo do ano, Le Pen negou ter mantido qualquer tipo de esquema fraudulento, mas admitiu equívocos na gestão de seus assistentes parlamentares. Ela foi eurodeputada de 2004 a 2017.
Existe uma previsão de redução de pena na Justiça francesa em caso de bom comportamento. Na melhor das hipóteses, isso deixaria Le Pen sem a tornozeleira a partir de janeiro. O tom que adotou na TF1, no entanto, foi de obter a liberação ou até mesmo a absolvição antes disso, na corte superior.
A despeito da confiança demonstrada no discurso, a agora candidata terá meses de batalha judicial antes de qualquer decisão definitiva. Le Pen preferiu, no entanto, assumir já um tom de campanha: “Os franceses terão a palavra final”.
Em comunicado publicado logo após o veredito, o Tribunal de Apelações declarou que levou em consideração “a liberdade de escolha do eleitor”. Ponderou ainda que, “à época dos fatos, [as penas de inelegibilidade] não eram obrigatórias”.
Com uma miríade de candidatos, a eleição, em abril de 2027, marcará o fim da era Emmanuel Macron. Le Pen concorrerá pela quarta vez e com uma popularidade muito maior do que teve em 2017 e 2022, quando foi superada apenas por Macron -após dois mandatos, o presidente francês não pode mais disputar o cargo.
“Saudável para a democracia é que o presidente da República não comente decisões judiciais; portanto, vou seguir essa linha de conduta, ainda mais estando no exterior”, disse Macron, em visita à Síria, marcada por explosões em Damasco.
Filha mais jovem de Jean-Marie Le Pen, um negacionista do Holocausto e criador da Frente Nacional, uma reunião de correntes ultranacionalistas francesas em 1972, Marine Le Pen passou os últimos dez anos buscando tornar a legenda palatável para o eleitor médio francês.
No caminho, afastou o pai, rebatizou o partido e, em 2022, mesmo sem chegar à presidência, emplacou uma aliança de extrema direita de 143 deputados na Assembleia Nacional, a maior bancada do atual Parlamento francês.
Bardella, 30, presidente da Reunião Nacional, é a face de maior apelo da sigla. Fluente nas redes sociais, defende as bandeiras típicas da ultradireita europeia, mas encontra tempo para frequentar as colunas sociais. É namorado de uma aristocrata italiana, Carolina de Bourbon-Duas Sicílias, que também é influencer.
Observadores veem na relação uma tentativa de suavizar a face política de Bardella, em uma espécie de reedição do esforço empreendido por Le Pen na última década. “Acho que essa dupla política que formamos pode realmente mudar as coisas. Pode representar um novo fôlego para o nosso país e mudar o dia a dia dos franceses”, declarou a parlamentar, ao reiterar que Bardella será indicado ao cargo de primeiro-ministro se for eleita no ano que vem.
O secretário-geral dos Republicanos, Othman Nasrou, afirmou que Le Pen tomou a democracia francesa “como refém” ao decidir concorrer às eleições presidenciais apesar da condenação. Gabriel Attal, do Renascimento, que também lançou seu nome para a disputa de 2027, afirmou que há “uma dimensão moral” na decisão de Le Pen de concorrer “possuindo antecedentes criminais e pena de prisão”.
Édouard Philippe, outro ex-primeiro-ministro e candidato à Presidência, afirmou que a escolha é de Le Pen e que ela deverá sua opção aos franceses. Líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon pediu aos eleitores que “livrem o país do RN”. “Vamos expulsá-los todos”, escreveu em rede social.



